Tira/Comic Strip – 02

tira 02 EduardoHenriqueMartins

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Translation:

Panel 1: ‘Bobo’ Network News Bulletin: The identification of the 9/11 victims was resumed in New York, to unify the population.

(worker:) Hey, I found a credit card!

(worker-2:) ‘think it works?

Panel 2: Obama makes an exchange for 30 armies and puts them in Guam.

Panel 3: Psy ask the USA for asylum, after the moving of missiles.

Sketchbook 2012 – Nº 2

Sketchbooks 2012-63 (smaller than others)

Aqui posto (no link abaixo) o segundo sketchbook que fiz em 2012. Logo figura um autorretrato, que colori recentemente, e agora é minha foto de perfil em algumas redes sociais. O caderno é permeado de estudos do corpo feminino. Estão lá, também, alguns desenhos de ossos humanos, e alguns dos estudos para o desenho sobre a cidade de Florianópolis, feito para o concurso promovido pelo grêmio de meu colégio na feira científico-cultural da escola, que acabei ganhando. Ali também ficaram os desenhos retratando alunos durante a feira, muitos fantasiados como personagens/pessoas históricas. Algumas páginas estão de fora e outras com parte cortada, sendo que no caderno original, encontram-se anotações e desenhos que não acho interessante mostrar agora.

Here I post (on the link below) the second sketchbook I made in 2012. Soon figures a self-portrait, which I’ve coloured recently, and now is my profile picture in some social networks. The book is permeated by studies of the female body. Also some drawings of human bones are there, and some of the studies for the drawing about the city of Florianópolis (in Brazil), made for the contest promoted by my school’s student organization in the cientific-cultural fair of the institution, which I ended up winning. There are also the drawings portraying students during the fair, many costumed as historical people/characters. Some pages are left out and others cropped, for in the original book are annotations and drawings which I do not find interesting to show now.

Link para os desenhos/ Link to the drawings

Por Eduardo Henrique Martins

Tira/Comic Strip – 01

Aqui está! A primeira tirinha que coloco aqui!

Here it is! The first comic strip I post here!

tira 01 small

translation: “This week, a private school in the centre of Florianópolis released its list of choices for the ‘vestibular’ [note: a test to get into any chosen college course in Brazil].

85 doubt; 28 Administration; 34 Law; and…

One Cinema.

One. One poor soul, rejected by society. Preferably his career would be to juggle in front of  streetlights.

The parents preferred not to comment.

(man:) Calm down, dear.

(woman:) “Gulp” “snif, snif!”

Dragão Vermelho (Red Dragon, 2002), Crítica/Review

Red Dragon poster 1

Primeiro a crítica em português, após, sua tradução para o inglês.

First the review in Portuguese, after, its translation to English.

Aviso: a crítica abaixo contém alguns spoilers, que estão sinalizados por [Início de spoiler(s)], ao começo, e [Fim de spoiler(s)] após. Se você não assistiu ao filme, a leitura da crítica não deve ser prejudicial, desde que não se leiam as partes com spoilers.

O filme Dragão Vermelho (Red Dragon, 2002), dirigido por Brett Ratner e contando com roteiro escrito por Ted Tally, o mesmo roteirista do filme “O Silêncio dos Inocentes”, é baseado no livro de Thomas Harris, e narra o “primeiro capítulo da trilogia Hannibal Lecter”, como anunciam seus cartazes. O filme é um prelúdio aos dois lançados anteriormente, “O Silêncio dos Inocentes” e “Hannibal”. Porém o livro no qual se baseia foi realmente o primeiro escrito e lançado da série do canibal. Esta é a segunda adaptação cinematográfica do romance. A primeira, chamada “Manhunter”, dirigida e escrita por Michael Mann, foi lançada em 1986.

O elenco é impressionante, contando com o novamente impecável Anthony Hopkins e outros famosos como Edward Norton, interpretando Will Graham, agente do FBI, Phillip Seymour Hoffman, como Freddy Lounds, repórter de tablóide, sarcástico, como de praxe são os papéis do ator, e Ralph Fiennes [início de spoiler/s], que excelentemente faz o serial killer da vez. [fim de spoiler/s]

O filme se inicia na década de oitenta, com um Lecter ajudante no FBI, mais especificamente conselheiro de Graham na sua busca por assassinos seriais. Will vai à casa do doutor contar sua teoria de que o matador que buscavam comia partes de suas vítimas, não as colecionava, como acreditavam. No decorrer da conversa Will percebe que Lecter, na verdade, era o procurado. Tenta disfarçar, mas deixa transparecer, e é atacado pelo psicanalista. Os dois se ferem. Dali se segue uma sequência com jornais explicando o que aconteceu após o incidente. Todo esse início é maravilhoso.

O filme, então, pula vários anos e vai para um Will traumatizado, que retorna a ativa para prender um novo serial killer. Logo, mesmo com medo, pede ajuda a Lecter. Daí para frente a trama se desenvolve.

Assim como no filme cujos acontecimentos sucedem este, o assassino é mostrado, mesmo enquanto o FBI não sabe quem ele é. Isso tira um pouco do mistério neste caso, porém abre espaço para o muito interessante desenvolvimento psicológico de um indivíduo como Francis Dolarhyde, ou “Tooth Fairy”, como é chamado pela imprensa o matador serial.

Hannibal não vê problema algum em assassinar pessoas, para comê-las ou utilizá-las para algum outro fim que aprove, assim como não vê problema algum em fazer isto com animais. Lecter é, aqui, muito mais feroz que em “O Silêncio dos Inocentes”, e desenvolve um relacionamento que sugere ressentimento com Will Graham, desejo de vingança, assim como afeição. Em relação a Clarice, personagem do filme seguinte segundo a cronologia das histórias, o psicanalista nutre um carinho muito grande. Ele parece mais velho também do que no primeiro filme, cujos acontecimentos são posteriores a essa história, a não ser no excelente prólogo passado nos anos oitenta. Ele é retratado mais como louco, que sente muito prazer em seus assassinatos, enquanto no primeiro filme é algo mais como um homem extremamente inteligente com filosofias diferentes, consideradas cruéis por aqueles em sua volta.

A trilha do filme é marcante, com violinos e violoncelos. Ela é influenciada claramente por música erudita, o que casa bem com o refinamento de Lecter. É uma dimensão que emeritamente imerge o espectador.

A produção é parecida em muitos aspectos àquela que a segue, na cronologia da série, intermitindo a investigação e cenas mostrando a história do serial killer procurado pelo FBI, deixando um certo gosto amargo na boca após ser assistida. Até a casa de “Tooth Fairy” é parecida com a de “Buffalo Bill”, apelido de imprensa do matador de “O Silêncio dos Inocentes”. Mas ele ultrapassa sem sombra de dúvidas o semblante de um filme redundante, apresentando novas idéias e várias surpresas, além de não fugir de cenas chocantes e apresentar personagens complexos e bem pensados. Este, porém, não é tão “redondo” quanto o primeiro, aparentemente se contentando com deixar de fora aspectos muito interessantes e importantes do livro em qual foi baseado, como uma análise mais completa dos personagens, em especial o interpretado por Fiennes, além de aspectos práticos, [início de spoiler/s] como a forma que Hannibal recebia as cartas de “Tooth Fairy”, e como suas cartas chegavam ao jornal. [início de spoiler/s]

A iluminação do filme é algo que também o diferencia, mostrando diversas vezes rostos iluminados pelas laterais. Ela faz grande trabalho na construção de atmosfera, assim como a música.

Cuidados foram tomados para a integração graciosa de Dragão Vermelho com “O Silêncio dos Inocentes”, não me sendo possível compará-lo com “Hannibal”,  pois não o assisti. Para este fim, o filme conta com cenários e exteriores, que, se não os mesmos, são réplicas, com a contratação do mesmo ator para interpretar o diretor da prisão onde Hannibal estava detento, e o roteiro, escrito pelo mesmo roteirista. O filme termina com uma cena do primeiro, onde é citada Clarice Starling, o que dá uma idéia de continuidade bem-vinda.

Por Eduardo Henrique Martins

Warning: the review below contains some spoilers, which are signaled by [beginning of spoiler/s], at their beginning, and [end of spoiler/s] afterwards. If you have not watched the film, the reading of this review should not be harmful, as long as the parts containing spoilers are not read.

The film Red Dragon (2002), directed by Brett Ratner and written by Ted Tally, the same scripwriter of the film “The Silence of the Lambs”, is based on the book by Thomas Harris, and narrates the “first chapter of the Hannibal Lecter trilogy”, as its posters announce. The film is a prequel to the two released previously, “The Silence of the Lambs” and “Hannibal”. However, the book in which it is based was truly the first written and released in the series of the cannibal. This is the second cinematographic adaptation of the novel. The first, directed and written by Michael Mann, was released in 1986.

The cast is impressive, counting with the again impeccable Anthony Hopkins and other famous actors such as Edward Norton, interpreting Will Graham, FBI agent, Phillip Seymour Hoffman, as Freddy Lounds, tabloid reporter, sarcastic, as usually are the roles played by the actor, and Ralph Fiennes [beginning of spoiler/s], who plays, with excellency, the serial killer this time around. [end of spoiler’s]

The film begins in the eighties, with Lecter as a helper to the FBI, more specifically as counselor to Graham in his search of serial killers. Will goes to the Doctor’s house to tell his theory that the killer they were searching for ate parts of his victims, not collected them, as they had believed. During the conversation Will perceives that Lecter, in truth, was the wanted man. He tries to conceal the knowledge, but makes it transparent, and is attacked by the psychoanalyst. Both are injured. Then follows a sequence of news papers explaining what happened after the incident. This whole beginnig is marvellous.

The film, then, jumps ahead many years and goes to a traumatized Will, who resumes activity as a criminal investigator for the FBI to catch a new serial killer. Soon, even freightened, he asks Lecter for help. From then on the plot develops.

Such as the film which its events follow this one, the murderer is shown, even when the FBI does not know who he is. This takes some mystery off, in this case, however opens room for the very interesting psychological development of an individual such as Francis Dolarhyde, or “Tooth Fairy”, the way the press calls the serial killer.

Hannibal sees no problem in assassinating people, to eat them or use them for some other end he approves, just as he sees no problem in doing such to animals. Lecter is, here, much more vicious than in “The Silence of the Lambs”, and develops a relationship which sujests resentment with Will Graham, desire for vengeance, as well as affection. Relating to Clarice, character of the next film according to the chronology of the stories, the psychoanalyst nurses a great caring. He seems older also than in the first film, which contains events that are posterior to this story, except for the excelent prologue in the eighties. He is portraid more as a madman, who feels great pleasure in his assassinations, while in the first film he is more of an extremely intelligent man with different philosophies, considered cruel by those around him.

The soundtrack is remarkable, with violins and cellos. It is clearly influenced by erudite music, what goes well with Lecter’s refinement. It is a dimention which emeritly imerses the spectator.

The production is in many aspects similar to the one that follows it, in the series’ chronology, intermitting the investigation with scenes showing the story of the serial killer hunted by the FBI, leaving a certain bad taste in the mouth after being watched. Even “Tooth Fairy”’s house is similar to “Buffalo Bill”’s, press nickname of the murderer from “The Silence of the Lambs”. But it surpasses without the shadow of a doubt the countenance of a redundant film, presenting new ideas and surprises, besides not running from shocking scenes and presenting complex and well thoughtout characters, This one, however, is not as “round” as the first, apparently content with leaving out very interesting and important aspects of the book in which it was based, like a more complete analysis of the characters, especially the one interpreted by Fiennes, [beginning of spoiler/s] besides practical aspects, such as the way Hannibal received letters from “Tooth Fairy”, and how his letters got to the newspaper. [end of spoiler/s]

The film’s lighting  is something that also differentiates it, showing multiple times faces lit by the sides. It does great work in the construction of atmosphere, as does the music.

Cares were taken for the graceful integration of Red Dragon with “The Silence of the Lambs”, it being impossible to me to compare it to “Hannibal”, for I have not watched it. For this end, the film counts with scenary and exterior, that, if not the same, are replicas, with the hiring  of the same actor to play the warden of the prison where Hannibal was detained, and the script, written by the same scripwriter. The film ends with a scene from the first one, where Clarice Starling is mentioned, what gives the idea of a welcome continuity.

By Eduardo Henrique Martins

Sketchbook 2012 – 01

Desenhos! Aqui posto meu primeiro sketchbook feito inteiramente ano passado. Para acessá-lo basta clicar no hyperlink “sketchbook” no fim do post. Ele contém estudos para a história em quadrinhos “Queda”, que já postei aqui, esboços aleatórios, assim como estudos para outras histórias e trabalhos. Incluindo alguns que não vingaram, como o da estampa de camiseta da Atlética de um curso superior da UFSC (que eu pretendia pintar, se fosse realmente estampar as camisetas oficiais). Mas este é post é contém uma novidade no blog (além dos desenhos e das palavras que aqui escrevo, claro): é o primeiro bilíngue. Daqui para frente escreverei todos os posts tanto em português quanto em inglês, o que significa um público maior e mais trabalho. Em fonte comum, as palavras em português, e em itálico as em inglês.

Drawings! Here I post the first sketchbook I completed last year. To access it, just click the hyperlink “sketchbook” at the end of the post. It contains studies for the comic book “Queda”, which I’ve already posted here, random sketches, as well as studies for other comic books and works. Including ones which did not come into being, as the stamp for the T-shirt of the athletic division of a third degree course at UFSC (Santa Catarina State’s University)(that I intended to colour, were it to truly be in the official T-shirts). But this post contains a novelty on the blog (besides the drawings and words which I here write, of course): It is the first bilingual one. From now on I shall write all the posts both in portuguese and in english, which means a bigger audience and more work. In regular font, the words in portuguese, and in italic the ones in english.

hyperlink: sketchbook

E aqui, algumas das páginas:

And here, some of the pages:

 

O Vôo (Flight, 2012), Crítica

Aviso: a crítica abaixo contém alguns spoilers, que estão sinalizados por [Início de spoiler(s)], ao começo, e [Fim de spoiler(s)] após. Se você não assistiu ao filme, a leitura da crítica não deve ser prejudicial, desde que não se leiam as partes com spoilers.

O Vôo (Flight, 2012) foi dirigido pelo veterano Robert Zemeckis, que não dirigia um live-action (filme com atores mostrados, diferente de uma animação) desde 2000 com Náufrago (Cast Away), e escrito por John Gatins. A produção conta a história de Whip Whitaker, piloto de aviões, que, após uma aterrissagem de emergência impressionante, enfrenta acusações de estar sob efeito de substâncias tóxicas durante o vôo.

As atuações são em geral boas, sem nenhuma forçada. Don Cheadle se prova cameleônico, ao menos para mim, interpretando Hugh Lang, um advogado calmo e confiante, extremamente polido, que afirma que seus clientes não vão para a cadeia. Denzel Washington não se distancia de seu pão com manteiga, porém o faz competentemente, criando um alcoólico cocainômano eventual, garanhão, engraçado, mas também sério, e altamente frustrado pelo distanciamento de sua família. John Goodman está novamente muito engraçado, no papel de Harling Mays, companheiro de Whip. [Início de spoilers] Porém, após ser introduzido, desaparece pela maior parte do filme, para reaparecer felizmente ao final, com uma participação infelizmente pequena. [Fim de spoilers] Seu relacionamento com o Capt. Whip poderia ter sido melhor explorado, já que Mays é o único verdadeiro amigo do piloto, o que fica implícito, e também seu fornecedor e parceiro no consumo de cocaína. Kelly Reilly faz excelentemente Nicole, uma doce e bela ruiva sulina, órfã viciada em heroína.

Aliás, um dos aspectos mais marcantes do filme é a inicial separação das histórias de Nicole e Whitaker, as quais aparentemente são dois filmes diferentes editados juntos, o que causa um certo desconforto. A divisão mesma me fazia procurar, enquanto eram projetadas, alguma relação entre as histórias paralelas. Por fim percebi que os realizadores provavelmente brincavam comigo, me conduzindo a fazer o que queriam, como um adulto que engana uma criança, imaginei-os se contorcendo e dando risadas, e achei uma ótima forma de fazer o filme, bastante não usual e vanguardista, até, contrapondo a natureza conservadora mais tarde revelada.

A trilha sonora é composta por músicas amplamente conhecidas, e boas  na minha opinião, que adicionam mais um elemento cômico à produção que a beneficia, com a exceção da faixa da banda americana Pearl Jam. Além destas, composições originais estão lá, mesmo que por vezes desnecessárias, adicionando melodramatismo cansativo, e por outras servem para engrandecer o filme positivamente, [Início de spoilers] como na cena em que Whip encontra o frigobar cheio de bebibas alcoólicas e pondera consumi-las. [Fim de spoilers] De qualquer maneira, falta inspiração e criatividade à essas originais.

Ao decorrer do filme, o foco vai de vez em quando, e gradativamente com maior frequência, para religiosidade (cristã, para ser mais específico), o que inicialmente parece uma crítica coerente, porém com o passar do tempo se revela propaganda religiosa pedante. [Início de spoilers] Respeito o que faz o protagonista ao final, porém é mostrado como uma salvação, por aceitar deus, ou uma aceitação de deus pela iluminação trazida pela salvação. [fim de spoilers] Esse aspecto machuca deveras a produção e faz com que este filme não seja ótimo, ao meu ver. Outra forma de propaganda que incomoda são as marcas inseridas a qualquer momento, tornando o filme um comercial de relógios, bebidas, e outras coisas em momentos.

Eduardo Henrique Martins

Django Livre (Django Unchained, 2012), Crítica

Quando comecei este blog não pensei que publicaria críticas aqui, somente desenhos, pinturas, vídeos, esse tipo de coisa. Quando me foi sugerido escrever a crítica deste filme, e colocá-la aqui, pensei que fosse uma ótima idéia, mesmo sendo uma coisa a respeito da qual não tinha pensado. Então, com prazer, exponho a crítica que escrevi sobre o filme Django Livre:

Aviso: A crítica é destinada a quem já assistiu ao filme, contendo ela spoilers (informações que devem ser descobertas ao assistir ao filme, no caso). Leia por sua conta e risco.

Django Livre (Django Unchained, 2012), um western sulista que se passa dois anos antes da Guerra Civil Americana, é o primeiro western de Quentin Tarantino, gênero que claramente muito o influenciou ao longo de sua vida. Estrelando Jamie Foxx como o personagem-título, Christoph Waltz (Coronel Hanz Landa de Bastardos Inglórios, filme anterior do diretor), como o caçador de recompensas alemão Dr.King Schultz, Leonardo DiCaprio como o dono de grande plantation Calvin Candie (ou Monsieur Candie, como prefere ser chamado), Samuel L. Jackson, como Stephen, escravo de Candie, e Kerry Washington como Broomhilda Von Shaft, apelidada de Hildi, também escrava de Candie e mulher de Django. A obra retrata indubitavelmente o estilo Tarantino, lembrando, assim, um romance (não confundir com história de amor) e apresentando os exageros cômicos e idiossincrasias características, salvo a divisão em capítulos. Além disso, o novo maneirismo coerente que é o uso do superzoom repentino, e a continuidade da onda de poliglotismo do diretor, com relances de outras línguas que não o inglês, o que não é usual para uma produção americana (e que vejo como positivo). Aliás, é o filme mais engraçado do diretor, não só pela escatologia da violência, (o sangue está por toda parte neste filme, espalhando-se em explosões causadas por tiros de revólveres e outras armas), mas pelas situações e frases de efeito, como “They’re wipping Little Jody?” ( ou, “Estão chicoteando a Pequena Jody?”, em português), ao mesmo tempo apresentando muitas cenas de violência bruta e dramaticamente impactante, o que também está presente no Django original, filme que serviu de inspiração para esta nova produção.

O filme não é a ampla revisão histórica de Bastardos Inglórios, mas conta uma improvável odisséia de revolta contra os brancos nos Estados Unidos que não ocorreu, similar ao que os Bastardos fizeram aos nazistas. Ele se inicia engraçado e comparativamente leve; torna-se mais denso à medida que avança, mostrando realidades duras e tornando-se “um filme de adultos”, quando é aparente algo como uma pausa para falar de assuntos sérios, mas assuntos sérios extremamente estimulantes com piadas e excelentes frases de efeito inseridas no meio; por fim se dá às ótimas loucuras de Tarantino, acabando triunfalmente e comicamente em uma vingança sangrenta bem-sucedida, com Django, vestido com roupas requintadas de Calvin Candie, e Broomhilda, reunidos. Como é de se esperar, a história não é linear integralmente, utiliza-se de flashbacks inteligentes mas não extensivos como em Kill Bill, no qual chega a dividir o filme em passado e presente.

Outra aspecto inusual é a utilização do termo “nigger”  de forma tão extensiva e espontânea, de tal maneira que foi dita muito mais vezes do que em qualquer outro filme que eu já tenha assistido, e que representa uma ótima caracterização histórica, além de gerar inúmeras piadas. As críticas que definem o filme como racista, contudo são más interpretações do material, pois é exatamente o contrário. Cenas de violência seca mostram ao espectador os mal-tratos enfrentados por escravos e a mentalidade do que era aceitável na época e no local, assim como reflexões sobre a prática da caça de recompensas, muito por ela se fazer tão presente e tão sincera, mesmo com o mirabolante Dr.King Schultz a realizando ao lado de Django. Tarantino quis mostrar sem meias palavras as crueldades da escravatura nos estados sulinos dos Estados Unidos.

Dr. King Schultz, aliás, é um personagem muito interessante, contrastando sua teoria igualitária ao racismo dos outros personagens brancos. Christoph Waltz tem uma interpretação parecida em muitos aspectos com a sua do Coronel Landa, com a inclusão de um trejeito de pentear e em seguida enrolar as pontas de seu bigode, e um pouco menos psicopatia que seu personagem do filme anterior. Existem várias cenas em que ele toma posição central, como a dentro do saloon vazio, quando fala com Django enquanto serve cerveja e tira o excesso de espuma com o palito, parecido com os closes de comida de bastardos inglórios; outra onde pode ser sentido um provável eco da forma de Tarantino dirigir quando ele pede a Django para escolher suas roupas e lhe concede ampla liberdade para formar seu personagem (o que repete mais tarde), mesmo que dentro da base estabelecida; e uma cena ao final, na qual, após muita tensão, Dr. King reflete sobre o sofrimento de um homem negro causado em parte por seu parceiro e aprendiz, percebendo o monstro que havia criado, porém não renunciando à sua filosofia de matar os “maus”, tão tarantinesca. Além disso, chama a atencão sua decisiva e surpreendente decisão de assassinar Candie (que provocou a perda de fôlego sonora de um membro da platéia na sessão na qual assisti ao filme, ouvida pela sala inteira).

Jamie Foxx estrela como o apaixonado, vingativo, dramático e pouco sorridente Django (mesmo não chegando ele a ser um Clint Eastwood, ou o próprio Franco Nero como o Django original), incorporando muito bem a indignação de um escravo mal-tratado, separado à força de sua mulher. Ele é, desde cedo, agressivo, porém com o passar do filme sente cada vez menos compaixão pelos outros, cego por seu desejo de obter a esposa de volta, unido ao treinamento de caçador de recompensas, e seu ódio contido. Leonardo Dicaprio faz seu papel de Candie também muito bem, um homem sem dúvida a ser odiado por muitos que assistirem ao filme, sem cair no maniqueísmo óbvio de várias produções americanas, sobretudo blockbusters, sendo o personagem um homem cruel para com seus escravos, com seus dentes podres, (que em uma cena pode-se ver que são encaixados sobre os comuns de Leonardo Dicaprio), e com desejos sexuais, implícitos, pela irmã  Lara Lee Candie-Fitzwilly (e ela por ele), recentemente viuvada, interpretada por Laura Cayouette (Incesto tem se tornado popular desde Game of Thrones). Ao mesmo tempo, é dotado de boas maneiras, sabendo ser agradável, possuindo ampla biblioteca em sua fazenda, e que não nutre um grande ódio por qualquer coisa em particular, a não ser talvez fazer um mal negócio. Samuel L. Jackson está positivamente caricato em sua interpretação de um negro doméstico, racista para com outros negros, considerando-se talvez uma categoria à parte, superior aos de sua etnia, reclamão, mas que realmente gosta do personagem de Leonardo Dicaprio. Franco Nero faz uma aparição como dono de negro lutador, em uma ótima passagem de “luta de Mandingos”, acabando por ter uma breve conversa com Django sobre a pronúncia do nome do ex-escravo. Kerry Washington não tem atuação notável no decorrer do filme e sua personagem não faz muitas coisas relevantes, mas é uma boa motivação à Django. A aparição surpresa do diretor foi bem pensada e muito bem-vinda, e espero que se torne mais frequente do que já acontece em seus filmes. Mesmo assim Tarantino parecia o único caubói limpo do pedaço, o que o separava um pouco do resto. Outra surpresa foi o ótimo personagem Big Daddy, que se revelou líder de um embrião da Ku Klux Klan.

A inclusão da organização, além de inteligente em razão do filme tratar tanto de racismo, reflete o filme Django original, do 1966. A cena que tira sarro da ordem, da qual Jonah Hill faz parte, além de inesperada, não estaria fora de lugar em um filme de comédia, mesmo mantendo sua ironia crítica firme, precedida por uma cena de ataque na qual toca Wagner.

Existem ecos do compositor alemão em Django livre, com a mulher do personagem principal chamando-se Broomhilda, em referência a Brunnhilde, e ele sendo chamado de “Siegfried da vida real”.

A trilha sonora como um todo é outro aspecto marcante, e característico do diretor, contendo várias músicas, e de estilos diferentes, que quase sempre funcionam extremamente bem para seus propósitos. A cena em que se toca 100 Black Coffins do rapper Rick Ross é simplesmente brillhante. Trilhas de outros westerns também foram incorporadas pela deste, como as inclusões interessantes das faixas do Django original, a música tema e La Corsa (2nd Version), presente nos melhores momentos do filme de 1966, e a música tema do pouco conhecido faroeste “Lo Chiamavo King”. Na vingança final, o Hip-Hop torna a ser usado novamente, de maneira negativamente exagerada, diminuindo a tensão da cena, parecendo algo saído da mente de um adolescente que ouve músicas do rádio e televisão, porém não é um incômodo duradouro. Também ao final, a metáfora do cavalo livre parece um pouco ridícula, mesmo apresentando imagens bonitas.

Contando com uma edição sonora muito boa, com efeitos sonoros periféricos como o tic-tac do relógio de parede fora do enquadramento e o relinchar leve de um cavalo do lado de fora da casa elevando a ambientação à um nível hiperrealista em partes. Um ótimo exemplo da edição competente é a cena de “luta de mandingos”, onde o som potencializa a dramaticidade  com os efeitos de contato entre os dois negros, as roçadas e escorregadas uns nos outros e no chão, além dos encorpados socos e as respirações ofegantes, tudo isso bastante alto em relação ao som de uma cena usual do filme, aproximando a situação ao espectador; a sonoridade ajuda também na cena do dilaceramento de D’Artagnan pelos cachorros, mesmo sem o mesmo choque e intensidade à citada anteriormente.

Os figurinos do filme também foram extremamente bem realizados, como o casaco europeu de Dr. Schultz e as extravagantes e pomposas roupas do flamboyant Django, desde seu disfarce  inicial à sua estilosa roupa usada por maior parte do filme, as chiques roupas de Candie, e as utilitárias de pedestres e escravos.

Visualmente impactantes, também, são os sets atentos a detalhes e as locações, incluindo belas cenas com neve, pouco comuns em westerns, dando um tom de originalidade, inovação e autenticidade artística ao filme.

Ainda outro aspecto visual marcante são os letreiros, bastante utilizados no filme, sejam eles explicativos, como quando vão à New Orleans, no Mississipi, onde o nome do estado passa, colossal, da direita para a esquerda sobre uma cena aérea de escravos indo e voltando, com seus donos, à feira de negros, inusitada e bem-humoradamente revelando uma visão das feiras de escravos daquele estado na época, ou crediários, como os ao início e final, emulativos aos do Django de Sergio Corbucci.

Em meio àquele sangue, comédia, e sangue engraçado, saí do filme me sentindo extremamente bem. Django é, ao meu ver, provavelmente superior à Bastardos Inglórios, até então meu filme favorito de Tarantino. Suas cinco indicações ao Oscar são justificadas. E levando em conta a experiência como um todo de assisti-lo, o considero excelente e altamente recomendado.